“Não há duas palavras mais nocivas do que ‘bom trabalho’.” Assim o professor Fletcher, personagem do filme Whiplash – Em busca da perfeição, recém-indicado ao Oscar, justifica os abusos verbais que dirige a seus alunos do conservatório de música. Para ele, só as críticas mais severas levam um aprendiz à perfeição. O filme provoca reflexões sobre pedagogia, com implicações na relação entre pais e filhos. A especialista Luciene Tognetta é pedagoga, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP e faz parte do Departamento de Psicologia da Educação da Unesp, no campus de Araraquara, onde coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) e trouxe outras reflexões.

No filme Whiplash – Em busca da perfeição, há fundamento no método do professor que acha que, só por meio da crítica, seu aluno poderá melhorar?

O pressuposto desse professor vem lá de 1920. Ele espera um comportamento do aluno baseado num estímulo de punição. Isso é o behaviorismo clássico, aquele que dava choques no ratinho, tirava a banana do macaco. Mas, entre os próprios behavioristas, existe divergência. Um que faz uma crítica muito severa às formas de punição é Skinner [Burrhus F. Skinner, psicólogo], que dizia que o controle aversivo dá resultados eficientes, do ponto de vista da conduta esperada, mas traz problemas para o desenvolvimento da personalidade do sujeito. Skinner dizia que, para criar motivação, é preciso um estímulo positivo, o elogio ao bom comportamento. Essa prática do elogio é retomada por autores como Piaget [Jean Piaget, epistemólogo e psicólogo] e Bandura [Albert Bandura, psicólogo]. Segundo esses autores, a coerção nunca traz o melhor resultado. Se você pode dar a crítica ou o elogio, dê o elogio, porque ele fará com que o sujeito crie uma boa imagem de si. Mas há um porém: o que acontece com quem está sempre esperando o elogio do outro? E quando esse elogio cessa? Tanto Piaget como Bandura pressupõem que a regulação do comportamento precisa partir do próprio sujeito – uma autorregulação.

Então, qual a medida do elogio?

Segundo um autor chamado Haim Ginott [psicólogo], há uma diferença entre o elogio valorativo e o elogio apreciativo. O elogio valorativo é um julgamento de valor. Se eu digo “Como você é inteligente!”, estou atribuindo a você o meu valor. Mas, se é você que tem de construir uma ideia de si, uma “crença de autoeficácia”, como diria Bandura, esse elogio não é eficaz. O elogio que dá conta de fazer isso é o elogio apreciativo ou descritivo. Se eu digo “Nossa, suas perguntas me fizeram pensar em muitas coisas”, você conclui algo sobre si próprio, estabelece um juízo sobre suas possibilidades.

Em vez de comentar uma característica minha, você comentou algo que fiz. Para um pai, é como elogiar o filho pelo esforço nos estudos em vez de chamá-lo de inteligente.

Exatamente. Chamar de “elogio descritivo” dá bem a ideia do que temos de fazer. Uma vez eu estava numa sala de aula, e a professora pediu para os alunos mostrarem seus desenhos. Comecei a fazer alguns elogios: “Uau, essa árvore que você desenhou, como ela está verde! Deve ter bastante chuva aqui! E olha que sol gostoso, tão amarelo!”

Você não disse “Que desenho bonito!” ou “Você desenha muito bem!”

Porque essa conclusão não me cabe, ela cabe à criança. É claro que é muito difícil para um pai deixar de dizer para o filho, quando ele tira um 10 ou faz um gol, por exemplo, “Você é o cara!” Lembro-me de uma aluna minha que ficou muda quando a filha lhe contou que passou no vestibular. Não sabia mais se podia elogiar ou não, que judiação (risos). É claro que tem de elogiar, seu filho espera o reconhecimento. Descreva o que está vendo, diga “Você conseguiu, parabéns!”, e não “Você é o cara!”, porque nem sempre ele vai conseguir. Com relação à crítica, é a mesma coisa: se tenho alguma crítica ao desenho da criança, posso perguntar: “Cadê o chão?” Toda a questão é fazer com que o sujeito se autorregule. Preciso dar a ele boas informações que o ajudem a entender o que ele fez e o que pode fazer. Para isso, uma estratégia extremamente importante é dar boas perguntas. “O que você poderia ter feito para que o desenho fosse mais colorido? Ou para alcançar essa nota musical?”

A regra é a mesma para a crítica de ordem moral, a famosa “bronca”?

O nome próprio dessa bronca, na literatura, é “sanção por reciprocidade”. A regra é a mesma: dê boas perguntas que façam a criança pensar, porque assim ela pode se autorregular. Se ela está batendo no amigo, eu digo: “Por que você bateu nele? Como você poderia ter resolvido o problema de outro jeito?” E para o amigo: “Diga por que você não gostou”. Eu faço um movimento duplo, para que tanto quem foi agredido se defenda quanto quem agrediu perceba o ponto de vista do outro. Por isso é sanção por reciprocidade.

 

É verdade que os pais de hoje não sabem dar bronca nos filhos como antigamente?

Uma coisa legal que os pais faziam era dar aos filhos a possibilidade de resolverem os conflitos. Quem brigava na rua não contava para a mãe, irmão resolvia com irmão, senão brigava na rua e apanhava em casa. Só que as famílias de hoje são de filhos únicos. A gente pensa “No meu tempo, a mãe batia e resolvia”, mas não é porque a mãe deixou de bater que a nova geração é diferente, é porque os filhos únicos não têm os pares em casa. Por isso que é na escola que eu vou provocar muito trabalho em grupo, resolução de confrontos. Não é mandar para a diretoria sempre que alunos brigarem, é colocar os dois frente a frente e mediar a resolução entre eles.

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